Agricultura

Safra 2025/26: Chuva fora de hora, frio e seca alteram colheita de café em Minas.

Fonte: Café Point

Cooperativas relatam avanço lento, grãos defeituosos e safra abaixo do esperado, mas mantêm boas expectativas para 2026; mesmo assim, na Cooxupé, primeiros cafés da safra tem peneira 17 acima.

A colheita da safra 2025/26 avança de forma desigual em Minas Gerais, principal estado produtor de café do país. Na região da Cooxupé, maior cooperativa cafeeira do mundo, o progresso está abaixo do habitual, pressionado por chuvas fora de época e frio durante a secagem dos grãos. No Triângulo Mineiro, produtores da Coocacer também sentem os efeitos de uma florada comprometida pela estiagem de 2024. Apesar dos desafios, as boas condições vegetativas das lavouras apontam para um cenário mais favorável na próxima safra.

A colheita de café da safra 2025/26 segue em ritmo mais lento do que o habitual nas áreas atendidas pela Cooxupé (Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé), maior cooperativa de café do mundo, com sede em Guaxupé (MG). De acordo com Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador de geoprocessamento da cooperativa – que atende 20 mil cooperados em 360 cidades –, o avanço da colheita está em 24,3% na média geral, com grande variação entre as regiões devido a diferenças de altitude e à interferência do clima.

No Sul de Minas, por exemplo, a colheita chegou a 29,3%. Mas há contrastes: enquanto em áreas de menor altitude, como Carmo do Rio Claro e Alpinópolis, o avanço supera 35%, nas regiões de montanha, como Nova Resende e São Pedro da União, a colheita ainda gira em torno de 18% a 20%. Na região do Cerrado, o índice é de 12,9%; já nas Matas de Minas alcança 33%. A Média Mogiana paulista está com 32,3% dos grãos colhidos.

“Este ano registramos volumes de chuva atípicos para maio e junho, justamente no período inicial da colheita. Isso atrasou a colheita, abriu uma janela maior de seca para quem precisa secar no terreiro e podemos sim perder qualidade”, explica Teixeira. Além de a umidade dificultar a secagem dos grãos, ela também favorece fermentações indesejadas e aumenta o risco de queda de frutos no chão, o que pode comprometer a bebida.

Além disso, as condições de frio e umidade têm favorecido a ocorrência de doenças fúngicas como a phoma (seca do ponteiro), especialmente em áreas mais suscetíveis. Ainda assim, segundo o coordenador, há aspectos positivos a se destacar: as chuvas ajudaram a repor os níveis de água no solo e podem beneficiar o desenvolvimento das lavouras para a safra 2026, com menor estresse hídrico e melhor sustentação do ciclo vegetativo. “Vamos ter mais quantidade de folhas, menos queda de folhas, então isso é favorável para a safra 2026”, analisa.

Outro fator importante nesta safra foi o regime de chuvas em 2024. A seca prolongada entre março e outubro passado atrasou a florada do cafeeiro, o que alongou o ciclo de maturação dos frutos e retardou a colheita de 2025. Embora o período de expansão (outubro a dezembro) tenha contado com boas chuvas e temperaturas adequadas — favorecendo o tamanho dos grãos —, a nova estiagem registrada entre janeiro e fevereiro deste ano, somada ao calor excessivo, pode ter comprometido a fase de granação, responsável pelo peso e densidade dos frutos. Isso pode reduzir a produtividade, além de aumentar a ocorrência de grãos defeituosos, como os do tipo “concha” (com apenas uma das duas sementes desenvolvidas). “Estamos com uma porcentagem maior de grão concha este ano”, afirma Teixeira.

Apesar dos desafios, os primeiros cafés recebidos pela cooperativa apresentam bons indicadores físicos e de qualidade, com destaque para os grãos de peneira 17 acima. Quanto ao rendimento, a estimativa preliminar é de estabilidade: cerca de 500 litros de café colhido para uma saca beneficiada, conforme a média da cooperativa. “É cedo para dizer, mas acreditamos que o rendimento deve se manter em linha com os últimos anos”, diz.

Sobre o volume total da safra, a Cooxupé ainda não divulga números. No entanto, a tendência, segundo Teixeira, é de uma safra similar ou até levemente inferior à de 2024.

Triângulo Mineiro também sente impactos

Já a colheita da nova safra de café no Triângulo Mineiro, no oeste de Minas, especialmente nos arredores de Araguari (MG), segue avançando, mas produtores da região já estimam que o volume final não deve superar o do ano passado. A expectativa era de uma safra cheia, mas efeitos climáticos recentes impuseram novos limites à produção.

“A gente deve colher entre 700 e 800 mil sacas, o mesmo patamar de 2023”, afirma Joaquim Raphael Frezza de Marco, agrônomo e gestor de relacionamentos e negócios da Coocacer (Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado), que reúne 248 produtores em seis municípios em torno de Araguari. A queda de até 30% em relação ao potencial produtivo da área está sendo atribuída principalmente à seca prolongada registrada no final de 2024, justamente no período da florada. “Apesar de a nossa região ser quase 100% irrigada por gotejamento, ele não mantém a planta, e o longo período de estiagem fez as plantas abortarem, perdemos muita flor”, explica o agrônomo.

Agora, na fase de colheita, os impactos aparecem também na qualidade. Segundo o agrônomo, a região tem observado muitos grãos malformados e com defeitos. Outro fator que trouxe problemas foi a chuva fora de época registrada em abril, que afetou principalmente as variedades mais precoces. “O café que já estava seco no pé voltou a pegar umidade, embolorou, e isso interferiu na bebida. Estamos vendo muitos lotes com defeitos como ‘riado’ e até mesmo ‘rio’ — coisa que não via acontecer por aqui há uns cinco anos.”

A colheita, que deve se estender até setembro, está cerca de 30% concluída nas lavouras e 20% nos armazéns. O clima, no entanto, continua desafiador. O frio e a falta de sol da semana iniciada em 22 de junho estão atrapalhando a secagem dos grãos no terreiro, como é tradição na região. O café úmido pode perder qualidade, e rapidamente. “Muitos nem estão abrindo o café porque, apesar do frio, está orvalhando”, diz Frezza. “Ele ‘embranquece’, fica parecendo isopor, perde peso e perde valor.”

Apesar das dificuldades da atual safra, há otimismo em relação ao próximo ciclo. A boa vegetação das plantas e o retorno de chuvas em setembro alimentam expectativas positivas para 2026. “Se o clima continuar bom, dá para superarmos a produção de 2023, que foi de 1,2 milhão de sacas”, projeta o agrônomo.

No quesito rendimento, os relatos são variados, com média de 19% registrada até agora, e a densidade dos grãos tem sido considerada boa, o que ajuda a manter alguma competitividade, mesmo diante da redução no volume colhido.

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