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Produtor põe café especial para ‘dormir’ em quarto escuro

Saca de café da fazenda campeã da Alta Mogiana atingiu o recorde de R$ 25 mil

Um quarto com luzes escuras, construído neste ano na parte mais alta do sítio mineiro Terracota Specialty Coffees, em São Tomás de Aquino, guarda um “tesouro”: microlotes de café especial maduros, colhidos 100% manualmente.

Esses grãos passam até 60 dias no “dark room” (quarto escuro) para o processo de secagem lenta, com controle de umidade e temperatura, depois de ficar cinco dias no terreiro suspenso. Quando atingem de 11,8% a 12% de umidade, são levados para o armazém, onde vão aguardar o beneficiamento.

A técnica de pós-colheita inspirada em fazendas da América Central, especialmente o Panamá, foi importada pelo produtor Felipe Carvalho, que há cinco anos se tornou sócio no sítio de 24 hectares herdado pelo padrasto, Fábio Antonio de Matos, com o objetivo de plantar variedades exóticas e produzir microlotes de cafés especiais.

Há cinco anos, Felipe Carvalho se tornou sócio no sítio de  24 hectares herdado pelo padrasto — Foto: Eliane Silva/Globo Rural
Há cinco anos, Felipe Carvalho se tornou sócio no sítio de 24 hectares herdado pelo padrasto — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

“Com o dark room, a gente consegue extrair o melhor deste café especial, resultando num sensorial marcante de frutas negras, frutado e muito adocicado”, diz Felipe, que trabalha em São Paulo como economista e cuida da comercialização dos cafés da fazenda. O trabalho braçal na Terracota fica sob a responsabilidade do padrasto, da mãe de Felipe, Márcia Ramos, e de dois funcionários fixos.

Fábio brinca que a técnica de colocar o café para dormir em casa já era aplicada por seu pai. “Quando eu era moleque, meu pai não tinha onde colocar o café que produzia e guardava grande parte em sacos de juta dentro de casa para não deixar o café na chuva. Ele não sabia, mas era um visionário.”

A primeira colheita em 2021 já teve cafés de destaque, mas neste ano, o grão da Terracota alcançou outro patamar: foi o campeão em outubro do 22º concurso de qualidade da Associação de Cafés Especiais da Alta Mogiana (AMSC), que reúne produtores de 16 municípios paulistas e 7 mineiros.

A saca da variedade geisha atingiu uma pontuação de 91,43, se classificando como um café presidencial (acima de 90 pontos) e bateu o recorde de preços da história do concurso: foi vendida por R$ 25 mil no leilão pós-concurso. Para comparação, o recordista era o campeão do concurso de 2023, que alcançou menos da metade (R$ 11 mil) no leilão. Uma saca commodity está sendo vendida por cerca de R$ 1.700.

Felipe afirma que a premiação e o valor recorde da saca divulgam o café do sítio e ajudam a pagar as contas, mas o mais importante é inspirar produtores da região a investir nos cafés de qualidade para agregar valor. Ele diz que dois vizinhos já “contrataram” o Terracota para fazer a pós-colheita de seus grãos.

Márcia Ramos e Fábio Antonio de Matos, da Terracota Specialty Coffees — Foto: Eliane Silva/Globo Rural
Márcia Ramos e Fábio Antonio de Matos, da Terracota Specialty Coffees — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

Marcia, uma bancária aposentada que sonhava descansar no campo criando galinhas e cultivando plantinhas, conta que o casal foi convencido pelas ideias inovadoras de Felipe e se apaixonou pelo trabalho no café.

“Este ano foi mais sacrificado devido à seca. Houve várias floradas e os grãos maturaram em épocas diferentes, o que aumenta o trabalho e demanda mais cuidado na colheita.”

Das 500 sacas colhidas neste ano, segundo Fábio, mais de 70% foram classificadas sensorialmente como especial (acima de 80 pontos na escala da Specialty Coffee Association).

O sítio fica a uma altura de 1.100 metros, cercado por mata nativa. Possui um solo argiloso vermelho, que tem como característica uma alta porosidade, o que facilita no armazenamento de água, e altos teores de matéria orgânica. A temperatura média durante a colheita e pós-colheita oscila ao redor de 20 graus.

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