Fonte: Revista Cafeicultura
Engenheiro agrônomo explica que processo fisiológico é essencial para ajustar a capacidade produtiva da lavoura
A queda de frutos do cafeeiro, muitas vezes vista como um problema pelos produtores, é, na verdade, um processo fisiológico natural e necessário para o equilíbrio da planta. O tema foi destaque na Fenicafé, em Araguari (MG), durante palestra do engenheiro agrônomo e professor Cláudio Pagotto Ronchi.
Segundo o especialista, a cafeicultura brasileira apresenta grande variabilidade de condições — envolvendo clima, manejo e materiais genéticos — o que dificulta a padronização das respostas das plantas. “A queda de frutos é um fenômeno comum e, do ponto de vista fisiológico, considerado normal”, explicou.
Ronchi destacou que a produtividade do cafeeiro está diretamente relacionada a diversos fatores, entre eles o número de frutos por roseta, e que a planta naturalmente realiza ajustes ao longo do ciclo. “A queda faz parte desse ajuste. A planta regula sua carga de acordo com a capacidade de sustentar os frutos”, afirmou.
Durante a palestra, o professor também chamou atenção para a diferença entre dois processos fundamentais: vingamento e pegamento. “O vingamento é a transformação da flor em chumbinho, dependente de polinização e fecundação. Já o pegamento está relacionado à permanência do fruto na planta até a colheita”, explicou.
De acordo com ele, condições climáticas adversas, como altas temperaturas e déficit hídrico durante a florada, podem comprometer o vingamento e gerar perdas já nas fases iniciais da produção.
Momento crítico exige atenção do produtor
Um dos pontos mais relevantes abordados foi o período mais sensível para a queda de frutos: a transição do chumbinho para a fase de expansão. “Nesse momento, há um aumento abrupto da demanda por energia. Quando a planta não consegue suprir essa necessidade, ocorre um desequilíbrio entre fonte e dreno”, destacou.
Esse desequilíbrio — entre a produção de fotoassimilados (fonte) e o consumo pelos frutos (dreno) — leva a planta a descartar parte da carga como forma de garantir o desenvolvimento dos frutos restantes. “A planta promove a queda como estratégia de sobrevivência e eficiência produtiva”, explicou.
Ronchi reforçou ainda que nem toda queda está relacionada a falhas na fecundação. “Mesmo frutos bem formados podem cair. Isso ocorre quando há um desbalanço fisiológico, indicando uma espécie de ‘fome energética’ da planta”, afirmou.
Esse processo envolve sinais internos, como baixos níveis de açúcares, que desencadeiam respostas hormonais, incluindo aumento de etileno e ácido abscísico, responsáveis pela abscisão dos frutos.
Impactos na produtividade e qualidade
Outro ponto abordado foi o vingamento parcial, evidenciado pela formação de grãos moca, que representam perdas produtivas. “A ausência de um dos grãos não é compensada em massa final, o que reduz a produtividade”, explicou.
Segundo o especialista, altos índices de moca estão diretamente ligados a condições inadequadas durante a florada, reforçando a importância do manejo nesse período.
Entender o processo é mais importante do que evitá-lo
Para o professor, tentar eliminar completamente a queda de frutos não é uma estratégia viável. “Isso é um paradoxo fisiológico. A queda faz parte do funcionamento da planta”, afirmou.
Como alternativa, ele defende o uso de boas práticas agronômicas que melhorem a relação entre fonte e dreno, como manejo adequado da lavoura e estímulo à capacidade fotossintética. “É mais importante entender e conviver com esse processo do que tentar evitá-lo completamente”, concluiu.
A discussão reforça o papel da Fenicafé como um dos principais espaços de difusão de conhecimento técnico, contribuindo para decisões mais assertivas no campo.
