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março 10, 2026
Agricultura

Estudo global sobre arábica confirma interação genótipo-ambiente na resistência à ferrugem.

Fonte: Café Point

Pesquisa da World Coffee Research revela diversidade do patógeno e aponta quais variedades são mais resistentes e suscetíveis à doença que ameaça lavouras no mundo.

Um estudo inédito, o maior já realizado até hoje sobre resistência de variedades de Coffea arabica à ferrugem do café (Hemileia vastatrix), confirmou a forte interação entre o material genético das plantas e as condições ambientais no combate à principal doença da cultura. 

O trabalho foi conduzido pela World Coffee Research (WCR), instituição internacional sem fins lucrativos dedicada ao avanço da cafeicultura sustentável, e publicado na revista científica Frontiers in Plant Science. Ele também destacou a existência de diferentes linhagens do patógeno e identificou quais variedades são mais resistentes ou suscetíveis em distintos contextos. 

Conduzido em 20 locais de 15 países produtores das Américas, África e Ásia, o estudo envolveu 29 variedades comerciais de arábica – embora o Brasil não tenha feito parte da pesquisa, algumas das variedades desenvolvidas no país foram utilizadas. Durante cinco anos, os cientistas acompanharam a incidência e a severidade da ferrugem, documentando o desempenho das plantas em diferentes altitudes, climas e sistemas de manejo, em situações tão diversas quanto locais quentes e secos na Zâmbia e ambientes locais mais frios e úmidos como Gambung, na Indonésia.

“Nenhum país ou instituição consegue resolver sozinho os complexos desafios que o café enfrenta”, disse Tania Humphrey, diretora científica da World Coffee Research, em comunicado sobre a publicação. “Este estudo demonstra o poder da colaboração global — ao reunir dados, expertise e recursos de diferentes continentes, conseguimos gerar insights que nenhum programa conseguiria descobrir sozinho”.

Os dados mostraram que não existe uma variedade com resistência absoluta à ferrugem em todas as condições. “Variedades comerciais de arábica frequentemente contêm combinações desses genes, mas nenhuma variedade possui todos os genes de resistência conhecidos”, relatam os pesquisadores. Algumas variedades mostraram resistência mais consistente em diferentes ambientes, enquanto outras foram altamente resistentes em alguns ambientes e pouco resistentes em outros, sugerindo que o ambiente e o genótipo interagem de forma complexa, afetando o nível de resistência ou suscetibilidade à doença.

Entre as variedades testadas, algumas — como parainema (parente do sarchimor e selecionada em Honduras), kartila 1 (um híbrido de arábica e libérica desenvolvido em meados do século XX na Indonésia) e IPR107 (criada em 1988 pelo IDR-Paraná, antigo Instituto Agronômico do Paraná, fruto do cruzamento entre catuaí vermelho e híbrido do timor) — apresentaram resistência consistente em diversos ambientes, tornando-se opções de resistência à ferrugem em geral. 

Outras, como caturra e typica, mostraram-se altamente suscetíveis, sobretudo em regiões mais quentes e úmidas, onde a pressão da doença é maior. Outras variedades, como EC16 (um híbrido de um descendente do híbrido do timor e uma variedade nativa etíope) e catigua MG2 (um cruzamento de catuaí amarelo e híbrido do timor, desenvolvido no final da década de 1980 pela Epamig), apresentaram excelente resistência em locais específicos, mas foram menos consistentes em outros.“Variedades com origens puramente arábica geralmente apresentaram maior suscetibilidade, enquanto aquelas com introgressões interespecíficas, como os derivados híbridos timor, apresentaram maior resistência”, escrevem os autores do trabalho, referindo-se à população de plantas resultante do cruzamento natural entre arábica e robusta e descoberto na ilha de Timor na década de 1920.

Além disso, o estudo detectou grande diversidade genética nas populações locais de H. vastatrix, o que representa um desafio adicional para os programas de melhoramento genético – até o momento, mais de 55 raças de do fungo foram identificadas, cada uma interagindo de forma diferente com diferentes variedades de café.

Disponível em acesso aberto, o estudo foi desenvolvido para fornecer informações estratégicas aos cafeicultores globais, já que a ferrugem-do-cafeeiro segue como um desafio persistente nas principais regiões produtoras do mundo.

Os autores do estudo destacam que os dados podem servir de base para o desenvolvimento de novas estratégias de manejo e para orientar programas de melhoramento que combinem resistência genética durável com adaptação às condições locais. 

Para saber mais

A ferrugem do cafeeiro, causada pelo fungo parasita Hemileia vastatrix, é a doença mais significativa na cafeicultura mundial. Em infecções severas, pode levar à desfolha das plantas de café, com redução da qualidade dos grãos e perdas de produtividade que variam de 35% a mais de 75% em casos graves.

Trabalhos anteriores indicam que as perdas econômicas anuais chegam a US$ 2 bilhões. Em 2016, a Organização Internacional do Café estimou perdas econômicas de US$ 616 milhões na América Central. Descoberta em 1861 no oeste do Quênia, oito anos depois já provocava uma epidemia no Ceilão (atual Sri Lanka). 

Nos anos 1920, a doença espalhou-se por boa parte da África e da Ásia e, em 1985, por quase todas as regiões produtoras de café do mundo – exceto o Havaí (EUA), onde foi registrada em 2020.

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