Agricultura

Calor e falta de umidade prejudicam as lavouras de batata

Veja dicas para reduzir riscos no plantio do tubérculo diante das mudanças climáticas

O produtor de batata orgânica Divino Fernandes Alves acabou de colher a produção de seus dois hectares em Brazlândia, na região de Brasília, e diz que só voltará a plantar o tubérculo, que garante a maior parte da renda da família, em março. Isso porque, embora use fertilizantes e defensivos naturais que ele mesmo produz, o plantio da batata no período das chuvas só dá prejuízo.

Alves conta que a produtividade da safra do tipo ágata caiu de 25% a 30% neste ano na comparação com 2023 por conta do calor extremo e da umidade baixa que atingiu seu sítio, que fica a cerca de 1.240 metros de altura.

“Só colhi 60 toneladas (30 toneladas por hectare), mas no ano passado também foi crítico porque enfrentamos muitos dias de umidade do ar de 7%. Se isso faz mal para a nossa saúde, imagina para a batata”, diz o produtor, que persiste na cultura há 18 anos e também planta morangos.

Lavoura de batatas orgânicas de Divino Fernandes Alves em Brazlândia (DF) — Foto: Arquivo pessoal
Lavoura de batatas orgânicas de Divino Fernandes Alves em Brazlândia (DF) — Foto: Arquivo pessoal

Mudanças climáticas

Diante do cenário de mudanças climáticas, que interferem no surgimento de pragas e doenças, a bióloga Adriana Micheli, mestre em entomologia, doutora em fitopatologia e especialista em batatas, diz que os riscos do cultivo realmente são grandes, já que plantar um hectare de batata custa até dez vezes mais que um hectare de cereal e uma doença mal gerida pode comprometer 100% da produção.

Segundo Adriana, que trabalha na G12 Agro, empresa de pesquisa e consultoria agronômica com sede em Guarapuava (PR), o produtor precisa errar o mínimo possível para garantir uma boa colheita e uma boa renda. A época de plantio varia bastante conforme a região e a batata gosta de noites frias.

“Na safra passada, o produtor da região sudeste de São Paulo enfrentou muito calor e falta de chuva, o que reduziu a produtividade em relação a anos anteriores, já na safra de setembro do ano passado na região de Guarapuava (PR), tivemos excesso de chuva, o que também afetou a produtividade. Essas alterações climáticas estão cada vez mais frequentes”, afirmou Adriana, em podcast promovido pela Ascenza, uma multinacional do grupo Rovensa que atua na proteção de culturas como a da batata desde 1965.

No Paraná, segundo maior produtor de batatas do país, atrás apenas de Minas Gerais, chuvas irregulares, ondas de calor intenso e períodos longos de estiagem contribuíram para a queda da produção e da produtividade projetada para a colheita de segunda safra, encerrada em outubro, segundo Paulo Andrade, especialista em horticultura do Departamento de Economia Rural (Deral).

A produção dessa safra ficou em 289 mil toneladas, 10,4% abaixo das 322,5 mil toneladas previstas, e o rendimento caiu de 31,8 mil para 27,5 mil quilos por hectare. A primeira safra 2024/25 começou a ser semeada em novembro, com expectativa de colheita de 527,9 mil toneladas, com produtividade de 31,7 mil quilos por hectare, se o clima ajudar.

Produção de batatas no Paraná sofreu queda neste ano — Foto: Gilson Abreu/AEN
Produção de batatas no Paraná sofreu queda neste ano — Foto: Gilson Abreu/AEN

Evitar riscos

Adriana lembra que é preciso saber o momento certo de intervir na plantação para garantir maior produtividade. Preparo antecipado e correção do solo são fundamentais para evitar riscos e garantir a produtividade.

A bióloga cita a requeima como uma das principais doenças que afetam a batata, principalmente nos períodos mais frios. Mais próximo do verão, os grandes desafios do cultivo são as pragas e a pinta-preta, causada por fungos do gênero Alternaria. Nos últimos anos, a pinta-preta tem se tornado mais agressiva e destrutiva em algumas regiões produtoras, o que tem dificultado o seu manejo.

Segundo Adriana, um ataque severo de pinta preta pode comprometer até 70% da produção de batata e a requeima pode consumir toda a plantação. Mas ela lembra que há uma grande variedade de produtos para o manejo de pragas e doenças, inclusive biológicos e novas moléculas, e divide o manejo em três fases principais.

“Há produtos específicos para uso preventivo com a finalidade de proteger o cultivo. Há os de alerta, que têm a função de evitar que a doença entre na plantação, e há os chamados apaga-fogo ou curativo, que são usados quando as pragas e doenças já afetaram a produção.”

O ideal, diz a especialista, é não esperar a doença entrar na plantação. O produtor deve usar o que tem no estoque, conforme o clima, monitorando sempre o cultivo, para evitar que a doença entre. “Em um momento de grande severidade da doença, o melhor produto do mercado terá eficácia quase reduzida.”

José Rodolfo Forti, especialista em desenvolvimento técnico de mercado da Ascenza, diz que, conforme o clima, doenças secundárias da batata podem passar a ser primárias.

O ciclo do cultivo da batata de mesa demora 90 dias, enquanto o ciclo da batata para a indústria é de 120 dias. Como o período de colheita da batata para indústria é maior, os riscos de o plantio ser afetado por pragas e doenças também é maior, por isso a importância do manejo desde o início do plantio.

Para a gerente de marketing e desenvolvimento de mercado da Ascenza, Patrícia Cesarino, o melhor manejo para prevenir doenças é unir e rotacionar de forma preventiva ativos diferentes, unindo ativos multissítio e sítio específicos e garantindo a cobertura por contato e ação sistêmica.

A bióloga acrescenta que é muito importante o produtor de batata procurar ajuda da assistência técnica para combater doenças e pragas e ficar de olho nas previsões do tempo. Ela lembra que há modelos de previsão de ocorrências de pragas e doenças, mas eles foram desenvolvidos por pesquisadores europeus, onde a batata conta com mais noites frias e maior disponibilidade de luz, e, portanto, não são adequados para os produtores nacionais, que demandam um modelo regional.

Dados do IBGE apontam que o Brasil produziu 4,2 milhões de toneladas de batata em 2023 numa área de 123,4 mil hectares, com rendimento médio de 34 toneladas por hectare. O valor da produção somou R$ 8,170 bilhões.

Dia de campo

No dia 5 de dezembro, a partir das 9h, será realizada a segunda edição do Dia de Campo da Batata, na estação experimental da G12 Agro, em Guarapuava (PR-466, km 255). Pelo menos 17 agroindústrias, entre elas a Ascenza, vão participar do evento, apresentando suas soluções para o cultivo da batata e outros produtos agrícolas.

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