Fonte: Café Point
Gustavo Paiva faz uma avaliação pragmática sobre como conflitos entre países afetaram a produção, a logística e o consumo de café.
Durante quase toda a segunda metade do século XX, o mundo viveu dividido em dois blocos de superpotências que competiam em várias frentes. A Guerra Fria impactou diversos países e campos da economia, e não foi diferente com os países produtores e consumidores de café.
Entre ações mais ou menos explícitas, variando desde a invasão por terra até o financiamento de grupos de oposição, podemos contar mais de uma dúzia de ações em quinze países latino-americanos desde o final da Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje.
O objetivo não é fazer juízo de valor ou entrar na seara político-ideológica, mas apenas fazer uma avaliação pragmática sobre como essas medidas afetaram a produção, a logística e o consumo de café.
Dos atuais vinte primeiros produtores de café, todos os países, com exceção do Brasil, viveram um conflito armado interno ou externo desde o final da Segunda Guerra Mundial. A maioria desses conflitos esteve relacionada ao contexto da Guerra Fria, à independência de colônias ou a intervenções norte-americanas.
Isso ocorre porque os países produtores se encontram em zonas estratégicas do planeta, com terras ricas tanto para a agricultura quanto para a extração de recursos minerais, e a maioria não tem força militar capaz de fazer frente a ataques de grandes exércitos estrangeiros.
A partir destas instabilidades, os três caminhos possíveis de evolução do preço do café no mercado internacional dependem de diversas variáveis, como o tamanho da produção do país em questão, o tamanho dos estoques internacionais, a duração do conflito e as orientações adotadas no pós-conflito.
Seguindo os fundamentos de mercado, estas instabilidades tendem a pressionar os preços para cima caso os estoques internacionais estejam baixos, a relevância do país em questão e os danos às infraestruturas nacionais. Por outro lado, se ao final do processo de mudança política os produtores estiverem mais desorganizados, forem menos apoiados e ficarem mais dependentes do setor privado, os preços locais – e, dependendo da relevância do país em questão, os internacionais – podem ser pressionados para baixo, como foi o caso dos preços internacionais no final dos anos 1980, depois de diversos conflitos na América Central e na Colômbia e da queda do Muro de Berlim em 1989.
Entretanto, na maioria dos casos, os conflitos são extremamente prejudiciais aos produtores locais e aos exportadores, sem afetar o mercado internacional.
Um exemplo histórico de como dois conflitos da Guerra Fria alteraram substancialmente os fundamentos do café foram os conflitos em Angola e no Vietnã. Até os anos 70, Angola era o principal produtor de Robusta na África e um dos principais do mundo. A longa guerra civil no país alterou substancialmente o cenário econômico e representou uma tragédia social.
Portanto, havia a necessidade urgente de buscar uma iniciativa viável para o cultivo de robustas em larga escala. Neste momento havia um país que acabara de sair vitorioso, porém arrasado de um conflito armado entre os blocos capitalista e comunista: o Vietnã.
Anos de investimentos, planejamento econômico e suporte adequado, renderam os seus frutos. Hoje, o Vietnã é o maior produtor de Robusta do mundo e o segundo maior produtor de cafés em geral, atrás apenas do Brasil. Enquanto isso, Angola ainda luta para retomar pelo menos parte da produção, tendo a sua logística interna danificada e grande parte do conhecimento técnico perdido.
No continente americano tivemos o caso em que El Salvador, tradicional referência e grande produtor centro americano, acabou perdendo o posto para sua vizinha Honduras. Mas este caso é um pouco mais complexo, já que muitos produtores e investidores hondurenhos possuíam origens e raízes salvadorenhas. Em um típico caso de colonização regional, muito parecido com o que ocorre no Brasil, com produtores do sul do país migrando para o centro e o norte para desenvolver os cultivos com os quais já estavam familiarizados.
Portanto, é inegável que as instabilidades nos grandes países produtores são danosas no longo prazo para a cultura cafeeira, mesmo que, no curto prazo, isso represente um ganho momentâneo para os produtores que não estejam envolvidos. Mas todo o conflito armado, além de extremamente custoso e sofrido para quem o vive, é como uma caixa de Pandora: sabe-se bem como se abre, mas é difícil de se fechar e impossível de prever todas as possíveis consequências.
