Agricultura

Exportação de café para Europa – Dados que servem a dois problemas: o encontro entre rastreabilidade ambiental e manejo fitossanitário na cafeicultura

Fonte: Revista Cafeicultura

Há um paradoxo curioso no debate que se instalou na cafeicultura brasileira a partir da aprovação do Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR): enquanto boa parte da discussão gira em torno de burocracia e rastreabilidade, os dados exigidos para comprovar conformidade ambiental são, em grande medida, os mesmos que permitem melhorar o manejo agronômico da lavoura. O produtor que investe em georreferenciamento de talhões, monitoramento histórico de uso do solo e registro sistemático de práticas agrícolas não está apenas se preparando para uma exigência regulatória europeia, está construindo a infraestrutura de dados que pode transformar a forma como a ferrugem do cafeeiro é manejada.

Essa convergência ainda é pouco explorada. No imaginário do setor, rastreabilidade e suporte à decisão agronômica seguem como projetos separados, com orçamentos separados e sistemas separados. Essa separação tem um custo, tanto econômico quanto técnico, que vale a pena examinar com cuidado.

O que o EUDR efetivamente exige (e o que isso implica em campo)

O EUDR, em sua versão vigente, exige que operadores e comerciantes demonstrem que os produtos exportados ao mercado europeu, incluindo o café, não contribuíram para o desmatamento ou degradação florestal após 31 de dezembro de 2020. Para isso, são necessárias coordenadas geográficas da área produtiva com resolução suficiente para comparação com bases de dados de cobertura do solo, além de evidências documentadas sobre a origem e o manejo do produto.

Na prática, cumprir o EUDR com rigor exige que o produtor saiba exatamente onde sua lavoura está, com qual resolução geoespacial, e que essa informação possa ser cruzada de forma auditável com imagens de satélite e registros de uso do solo ao longo do tempo. Não é suficiente ter a matrícula do imóvel. É preciso ter dados de polígono da área cultivada, validados contra bases como o MapBiomas, e manter um histórico que permita demonstrar continuidade de uso agrícola.

Esse conjunto de dados (polígono do talhão, série temporal de cobertura do solo, registro georreferenciado de práticas) é exatamente o substrato sobre o qual modelos de suporte à decisão fitossanitária operam. A sobreposição não é coincidência; é estrutural.

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