20.7 C
Franca
julho 23, 2026
Agricultura

Polinização assistida com abelhas melhora lucro e qualidade do café

Inserção de colmeias manejadas nos cafezais tem gerado bons resultados para produtores

No mercado financeiro, uma injeção de capital via um fundo de investimento pode render lucros e novos ativos para o serviço agropecuário. No café arábica, esse aporte pode vir das abelhas e gerar um cenário semelhante de lucratividade por meio de polinização assistida. A técnica das abelhas aumenta a produtividade em 16,5% por hectare e pode elevar a receita anual do café arábica em até R$ 22,43 bilhões.

É o que aponta um estudo inédito realizado pela Syngenta em parceria com a Embrapa em fazendas de café dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, entre 2021 e 2023. Pesquisadores e técnicos monitoraram o efeito da inserção de colônias de abelhas manejadas nos cafezais, onde notaram também uma melhora na qualidade do café. A introdução de colmeias de abelhas africanizadas (Apis mellifera) na produção de café foi comparada aos resultados com áreas onde a polinização era realizada apenas por insetos silvestres.

Em detalhes, o impacto significativo no valor de mercado calculado por pesquisadores foi: o preço da saca de café chegaria a R$ 2.014,90, aumento de 13,15%. No total, o mercado cafeeiro brasileiro saltaria dos atuais R$ 70,490 bilhões para R$ 92,919 bilhões, até que alcançasse a lucratividade que o estudo cita de R$ 22,43 bilhões.

“A nota sensorial da bebida aumentou em 2,4 pontos”, diz a Embrapa, em nota científica divulgada na quarta-feira (30/10).

A classificação de grãos passou de regulares para especiais em algumas fazendas, agregando valor ao produto. “O salto de qualidade elevou o valor da saca em 13,15%, o que representa um ganho de US$ 25,40 por saca”, informou a entidade.

Qualidade do café também aumentou com a polinização manejada — Foto: Gustavo Facanalli/Embrapa
Qualidade do café também aumentou com a polinização manejada — Foto: Gustavo Facanalli/Embrapa

Os resultados positivos são expressivos e podem ajudar em um momento de dúvidas sobre a produtividade do arábica na safra 2025/26, em especial devido à seca forte e às altas temperaturas, que se sustentaram por mais de 150 dias nos Estados analisados.

A coordenação da pesquisa ficou nas mãos dos cientistas da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil em fazendas de café com sistema convencional de plantio, e não o regenerativo que já costuma utilizar abelhas, inclusive para a produção de mel de café, um subproduto de valor agregado para o produtor.

A pesquisa debate o fato de que a polinização assistida pode gerar impactos econômicos significativos na cafeicultura, tornando o manejo de abelhas uma “ferramenta poderosa para melhorar a rentabilidade dos cafeicultores”, enfatizou o estudo.

Os cientistas monitoraram, ainda, a saúde das colônias de abelhas nativas sem ferrão expostas a um dos inseticidas sistêmicos mais utilizados no controle de pragas da cultura, o tiametoxam. Colaboraram para o estudo a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), a AgroBee, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Natural England e a Eurofins.

As abelhas africanizadas desempenharam um papel crucial na melhoria dos resultados. “A introdução das colmeias não só aumentou a quantidade de grãos por hectare, como também influenciou positivamente a qualidade do produto final. O aumento da nota sensorial, que leva em consideração características como sabor e aroma, permitiu que parte da produção alcançasse o status de café especial, um mercado com valor agregado substancialmente maior”, acrescentou a Embrapa.

Para Cristiano Menezes, pesquisador da entidade e um dos líderes do estudo, esses resultados mostram o potencial da integração entre o manejo de polinizadores e a cafeicultura de larga escala. “O uso de abelhas manejadas demonstra uma clara oportunidade de ganho econômico, ao mesmo tempo em que contribui para uma agricultura mais sustentável e eficiente”, afirmou.

Com base nos dados do estudo, os pesquisadores calcularam que, se todos os cafeicultores brasileiros adotassem a tecnologia de polinização assistida, a produção de café no País poderia ser transformada. Considerando os resultados da pesquisa e os valores atuais estimados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a produção cafeeira em 2024, haveria um aumento de 16,5% na produtividade com a presença das abelhas, o que representaria 6,5 milhões de sacas adicionais, elevando a produção total para 46,1 milhões de sacas.

Embrapa concluiu que a polinização assistida é uma técnica essencial para o café, particularmente, porque pode auxiliar na mitigação dos problemas gerados pelas imprevisibilidades climáticas, seja financeiro, como de sustentabilidade ambiental.

Produtor garante eficácia

O produtor rural Gustavo José Facanali, da Facanali Cafés, cultiva 120 hectares em São Paulo e no sul de Minas e inicialmente duvidava da eficácia da técnica, uma vez que a flor do café se autofecunda em mais de 80%.

Contudo, ao participar de um experimento, os resultados o surpreenderam. “Nas áreas onde as abelhas foram introduzidas, a produtividade aumentou 17%, de 110 para 128 sacas por hectare. Com o preço atual do café, isso representa um ganho de R$ 27 mil por hectare”, detalhou Facanali.

Na propriedade, foram utilizadas abelhas-sem-ferrão da espécie Mandaguari, introduzidas sete dias antes da floração e mantidas na lavoura por 21 dias. “Durante esse período, não fizemos intervenções na área, o que facilitou o manejo”, conta.

Além do aumento na quantidade, a pontuação da bebida subiu de 78-80 para 82 pontos. “Estamos vivendo um clima instável, que tem gerado perdas na produtividade. A polinização assistida pode ser um contraponto a esses desafios, ajudando a manter a rentabilidade com sustentabilidade”, argumentou.

Related posts

Pesquisador do Instituto Biológico participa da descoberta de novo gênero de nematoide no Brasil.

Fabrício Guimarães

Cochonilha das rosetas de cafeeiros ataca lavouras de arábica no cerrado mineiro.

Fabrício Guimarães

PIB cresceu 1,4% no segundo trimestre, mas agropecuária recuou 2,3%

Fabrício Guimarães

Deixe um comentário

Usamos cookies para melhorar sua experiência no site. Aceitar Leia Mais