Prof. Paulo Mazzafera
Unicamp
De alguns anos para cá o florescimento do cafeeiro tem ocorrido com maior frequência e intensidade em meses não usuais. Agora, são comuns relatos de florescimento significativo em março e abril, e até em maio/junho. Mas algo inusitado tem acontecido e embaralhado o que conhecemos sobre florescimento em café. Temos relatos de 50, 60 flores por roseta (ou nó).
É conhecido que no Arábica existem 5 gemas (chamas seriadas) em cada axila das folhas, e que de cada gema saem 4 flores. Logo, se temos duas folhas por nó a conta fica 2 folhas x 5 gemas x 4 flores = 40 flores no total. Portanto, potencialmente, quarenta frutos. Também sabemos que a principal florada é a primeira, quando é normal a abertura principalmente das flores das três primeiras, gemas, sendo que as outras duas gemas justificam as floradas seguintes, que sempre são menores.
Sobre a diferenciação das gemais florais no cafeeiro, ela começa em março/abril. A diferenciação é a formação das partes da flor, pétalas, ovário, etc. Ao se diferenciar a flor atinge um tamanho de 4 a 5 mm e entra em dormência verdadeira, quando acumula o hormônio ácido abscísico (ABA). Com o desenvolvimento do estresse hídrico durante o inverno e a queda de temperatura (sabemos mais do efeito do estresse hídrico do que da baixa temperatura), o nível de ABA cai e aumenta o de giberelina, outro hormônio vegetal. Com as chuvas, o nível de giberelina se mantém, e os de auxina e citocinina começam a aumentar.
Assim surge uma primeira pergunta: se existe o potencial de produzir 40 flores, como explicar que tem sido encontradas até mais de 60 por nó? Veja abaixo fotos do amigo Mosca.
A segunda pergunta é: como o florescimento acontece em épocas diferentes das normais, quando a lógica das variações hormonais não segue o padrão que conhecemos.
Uma busca na literatura mostrou que para algumas plantas, entre elas algumas lenhosas, temperaturas mais altas podem não só induzir a formação e diferenciação de gemas florais como também acelerar o florescimento. Logo, apesar de conhecermos pouco sobre o controle hormonal do florescimento em café (os trabalhos são de 1960), o florescimento fora de época e o maior número de flores poderias ser explicado pelas temperaturas mais altas que temos tido nos anos recentes.
A segunda pergunta é um tanto mais difícil. Mais consultas na literatura mostraram que temperaturas mais altas (MAS NÃO EXTREMAS) podem induzir a biossíntese de hormônios. A formação de gemas em plantas é controlada por uma rede complexa de hormônios, incluindo auxinas, citocininas e giberelinas. Esses hormônios interagem entre si e com fatores ambientais, como luz e temperatura, para regular a diferenciação e o crescimento das gemas.
ABA pode ser sintetizado pela queda da umidade atmosférica e diminuição da disponibilidade de água no solo. Muitos genes relacionados ao combate ao estresse de alta temperatura em plantas são controlados por citocinina. A síntese de giberelina e auxina, que estão relacionadas com expansão e crescimento celular, também podem ser induzidas pelo aumento na temperatura. Um porém é que estas informações vem de várias espécies, principalmente herbáceas. Além disso, apesar dos trabalhos que encontrei usarem temperaturas que podem ser equiparadas às que temos observado nas regiões cafeeiras brasileiras, a duração não atinge dias.
Em função dos comentários acima, eu arrisco dizer que ao longo da elevação da temperatura, até atingir as marcas que temos observado, deve haver uma faixa que deve favorecer um balanço hormonal que estimula a formação de mais gemas florais e mais flores, assim como adiantando o processo de florescimento. Lógico que as temperaturas altas judiam das plantas, mas aí são outros 500.