Tão perto, tão longe: o café brasileiro e a América Latina

Fonte: Café Point

Entre tradição e oportunidade, o café brasileiro redescobre a América Latina como um mercado em crescimento, com proximidade e potencial de valor – estratégico para diversificar riscos e fortalecer sua presença regional.

Por décadas, a cafeicultura brasileira manteve os olhos voltados para o Atlântico, de frente para o mar, como bem escreveu nosso colunista Gustavo Paiva em sua metáfora sobre nossa posição no mundo. Sempre orientados a exportar para Europa e Estados Unidos, deixamos a montanha — nossos vizinhos latino-americanos — em segundo plano.

Esta escolha fazia sentido quando o consumo interno da região era tímido e a lógica, apenas da escala, apontava para os mercados consolidados do Hemisfério Norte. Mas será que este paradigma permanece inabalável? Diante de um pano de fundo global em transformação — com cenário tarifário instável, novos arranjos geopolíticos redesenhando fluxos comerciais e a crescente percepção da máxima “não colocar todos os ovos na mesma cesta” —, talvez seja hora de perguntar: olhar para a América Latina ainda é apenas uma ideia simpática ou pode se tornar um movimento estratégico?

Os mercados da região continuam pequenos em termos absolutos. É preciso cuidado para não romantizar: enquanto a Europa concentra cerca de 30% do consumo mundial e países nórdicos chegam a 12 kg per capita por ano, o consumo da América Latina, com exceção do Brasil, ainda gira entre 1 e 3 kg. O consumo brasileiro está em 4,8 kg per capita, próximo dos Estados Unidos, mas em países como México (1,7 kg), Argentina (1,4 kg) e Chile (0,7 kg) ainda está em patamares modestos.

Mesmo assim, há sinais de dinamismo. A Colômbia evoluiu de 2,2 kg em 2019 para 3,08 kg per capita/ano em 2025. No Peru, o consumo interno está em cerca de 1,4 kg per capita/ano em 2025; o café solúvel no país segue dominante, concentrando 70 a 75% do montante, enquanto o moído já representa cerca de 20%. O mercado da América Latina tem uma taxa de crescimento entre 4% e 7,5% ao ano.

O ponto, portanto, é reconhecer que a América Latina também oferece caminhos de oportunidade. Os mercados vizinhos carregam vantagens competitivas claras: barreiras tarifárias menores, que reduzem custos de entrada; proximidade logística, que encurta prazos e barateia transporte; custos operacionais mais baixos, que aumentam a margem de competitividade; e, não menos importante, afinidade cultural, que facilita a construção de narrativas e marcas capazes de dialogar com os consumidores locais.

Essa proximidade não favorece apenas o comércio de café verde, mas abre também espaço para o café torrado e industrializado, com maior valor agregado e potencial de diferenciação para o consumidor.

Em Santiago, cafeterias de bairro já consolidam a presença do café especial; em Buenos Aires, o consumo per capita supera a média nacional, mesmo num país de tradição do mate; no Peru, cresce a disposição em pagar mais por qualidade. Essas mudanças mostram que a região pode se tornar um espaço estratégico para diversificação e construção de parcerias.

Mais do que exportar sacas ou pacotes de café, trata-se também de construir alianças. Como maior produtor do mundo, o Brasil tem um papel inescapável. Não é o caso apenas de aproveitar oportunidades, mas de liderar pelo exemplo. Fortalecer parcerias comerciais e colaborativas, trabalhar com países produtores em comércio justo e desenvolvimento econômico, assegurar que todos os agentes da cadeia sejam igualmente beneficiados: essa é a liderança que gera referência, confiança e estabilidade — e que projeta o Brasil tanto como fornecedor quanto articulador de um ecossistema.

No fim, a questão não é abandonar os grandes compradores do Hemisfério Norte, mas diversificar riscos, ampliar mercado e se posicionar. A região vizinha pode funcionar como um mercado de teste para marcas brasileiras, seja com cafés verdes ou com linhas de torrado e moído, em modelos mais próximos do consumidor final.

Oportunidades de posicionamento premium, parcerias de distribuição e novos canais tornam a América Latina um campo de negócio real e com escala crescente. E, ao mesmo tempo, o Brasil pode se posicionar como líder regional na agregação de valor, mostrando que não exporta apenas matéria-prima, mas também qualidade, sustentabilidade e inovação.

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