Técnica é usada em programas de melhoramento genético dos animais
Desde o nascimento do primeiro clone bovino, a vaca Vitória, em 2001, já foram produzidos mais de 700 réplicas de bovinos no Brasil, segundo estimativa de Rodolfo Rumpf, diretor técnico da Geneal, de Uberaba (MG), única empresa a ter atualmente a patente de clonagem no Brasil.
Então pesquisador da Embrapa, Rumpf foi o coordenador da equipe que clonou Vitória e também é responsável pela clonagem recente de Viatina-19, a vaca que alcançou em 2023 o recorde de R$ 21 milhões e pertence ao trio de criatórios da Casa Branca Agropastoril, Napemo e HRO Nelore.
A bezerra clone chamada Viatina-19 TN1 HRO (TN se refere à transferência nuclear, 1 é o primeiro clone e o nome HRO foi escolhido por ser o último comprador) já tem três meses e está na Geneal, prestes a ser entregue aos criadores.
Segundo Rumpf, existiam três empresas que faziam clonagem bovina no Brasil, mas só restou a Geneal, que já entregou mais de 600 clones a criadores de nelore, principalmente, mas também replicou animais das raças gir, guzerá e girolando. Além da clonagem, a empresa presta serviços de fertilização in vitro (FIV) e banco genético.
“A clonagem é uma técnica usada nos programas de melhoramento genético. O cliente é quem define qual animal será clonado. Geralmente, são reprodutores ou matrizes que estão sendo muito demandados do ponto de vista comercial, como a Viatina-19, mas também há clonagens estratégicas de animais que sofrem algum acidente e são descendentes de tops”, diz.
Foi o caso do touro Gandhi PO da Nova Índia. Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e pecuarista de terceira geração, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, o animal teve um traumatismo testicular e ficou prejudicado na produção de sêmen. “Produzimos três clones deles e dois deram bom resultado”, afirma.
Rumpf conta que a Geneal também oferece o serviço de guarda do material genético do animal. Nesse caso, a equipe faz biópsia do pelo do animal, isola as células e congela. Quando o criador manifesta interesse em fazer a clonagem, os embriões são reconstruídos a partir dessas células e transferidos para vacas receptoras. Em nove meses, nasce a réplica, que é como se fosse uma irmã gêmea da original gestada em barriga diferente. A clonagem custa cerca de R$ 100 mil.
Potencial de produção
Heitor Pinheiro Machado, assessor técnico da Casa Branca Agropastoril, diz que a empresa que tem cinco fazendas, três delas em Silvianópolis (MG), já faz clonagem há mais de 10 anos visando aumentar o potencial de produção de uma vaca de exceção.
“A réplica é geneticamente idêntica. Pode não ser tão próxima fenotipicamente, mas tem a capacidade de transmitir a mesma qualidade da vaca original. Com a clonagem, uma vaca que produz 60 filhos por ano por FIV pode produzir o dobro. Isso aumenta o retorno financeiro.”
Ele acrescenta que também é a forma de seguro mais barata de uma boa matriz ou reprodutor porque o limite do seguro financeiro bovino é de R$ 300 mil e só uma prenhez da Carina FIV do Kado (a vaca nelore de R$ 24 milhões que se tornou a mais cara do mundo no final do ano passado, derrubando Viatina-19 para o segundo lugar) vale R$ 600 mil.
“Se você perde uma vaca dessas por algum acidente ou outro fator, não perde apenas o dinheiro, mas o potencial genético do animal para o melhoramento do plantel e da raça.”
Atualmente, segundo Heitor, a Casa Branca tem 15 clones em sua fazenda e mais 12 vacas em processo de clonagem, incluindo Carina, que teve seu processo iniciado há um ano e meio, mas ainda não vingou. Para sua segurança, a empresa sempre coleta as células de uma novilha que está despontando enquanto ela é jovem e sadia já pensando numa futura clonagem, caso o animal confirme sua qualidade.
Médico veterinário, Heitor estima que o percentual de sucesso da clonagem é de cerca de um nascimento a cada 50 transferências e varia de vaca para vaca. Algumas, no entanto, nunca completam o processo de clonagem.
“Os primeiros clones que nasceram por aqui eram mais debilitados, tinham pouca saúde. Hoje já nascem bem saudáveis. Embora a técnica tenha evoluído muito, tem vaca que já tentou 300 vezes e não nasceu clone. Algumas têm problema no parto, mas outras nem completam a gestação.”
Atualmente, diz, a clonagem é bem segura, tanto que já há réplicas competindo nas pistas e produzindo campeões. Ele cita como casos de muito sucesso Donna FIV Ciav, que tem três clones de sete anos, e Isabella FIV Fortaleza VR, vaca de 6 anos que foi vendida por quase R$ 10 milhões no ano passado porque tem dois clones de 6 anos e 3 anos que já produziram campeões.
Rastreamento
Em outubro do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei do Senado que regulamenta a produção de clones de animais destinados à pecuária. O Projeto de Lei 5010/13 classifica os animais como “domésticos de interesse zootécnico”, incluindo bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos, equinos, asininos, muares, suínos, coelhos e aves.
O texto determina que os clones gerados deverão ser controlados e identificados durante todo o seu ciclo de vida por meio de um banco de dados a ser mantido pelo poder público, que terá informações genéticas para controlar e garantir a identidade e a propriedade do material genético animal e dos clones.
“Antes, existia uma norma, mas agora temos a regularização. A lei deve trazer mais visibilidade à clonagem de animais na pecuária. No início, havia muito receio. Hoje, todos conhecem clones filhos de campeões”, diz Rumpf, acrescentando que nesta técnica o Brasil tem resultados parecidos com Canadá, EUA e Europa.
Vitória, o primeiro clone, morreu com 10 anos. Segundo o especialista, a vaca teve uma intoxicação por carrapaticida e se machucou na hora de tratar. Rumpf diz que ainda não dá para estimar o tempo de vida de um clone bovino.